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Cinema · Crítica

Kylie Minogue: a força de uma estrela em jornada emocionante

Mais do que uma estrela pop, Kylie Minogue é símbolo de talento, resistência e reinvenção

Veredito
por Alvaro Costa//7 min de leitura
Capa do documentário
7 min de leitura·

Lágrimas nos olhos. Assim me sinto ao ver a série documental sobre minha amada Kylie Minogue. Dividido em três partes, o especial mostra os principais acontecimentos da vida da australiana de Melbourne, desde a infância até a atualidade. Nele, vemos uma artista extremamente humana, que se permite sentir e viver intensamente, e é justamente aí que reside sua maior força. E não é para menos: desde criança, Kylie sempre foi muito transparente em relação ao que sentia e desejava. Foi essa vontade que levou a menina ao estrelato na Austrália por meio da novela Neighbours. A partir daí, os êxitos só aumentariam: ela se lançaria como cantora e explodiria mundialmente.

Entre viagens da Austrália para a Inglaterra, Kylie foi finalizando seu primeiro álbum e caiu no gosto popular. Sucessos como The Loco-Motion, Should Be So Lucky e Je ne sais pas pourquoi foram êxitos instantâneos e marcaram a vida da baixinha linda. Contudo, como acontece com tudo o que explode na mídia, logo começaram os comentários maldosos sobre o tipo de música que ela fazia, considerada descartável e ruim por muitos críticos. O pior eram as reportagens sensacionalistas dos tabloides britânicos, que davam apelidos horrorosos a Kylie e destilavam machismo, xenofobia e outras atitudes que, hoje, renderiam processos milionários.

Confesso que essa parte me deixou muito triste, pois pensei: como uma menina tão querida e talentosa conseguiu suportar tudo isso? Digo a vocês, caros leitores, que Minogue só atraiu tantas críticas justamente por ser incrível e por ocupar o topo das paradas, algo que muitos tentam alcançar e não conseguem. Houve muita inveja e, embora eu não possa provar, imagino que também tenha existido muito dinheiro envolvido na tentativa de destruir a recém-iniciada carreira da diva. Contudo, nada disso adiantou, pois Kylie lançava hit atrás de hit e conquistava o público com sua simpatia e talento.

Todavia, a estrela também tinha seus momentos de vulnerabilidade, algo perceptível em algumas entrevistas apenas pelo olhar. Com o tempo, a diva foi se fortalecendo e aprendendo a lidar melhor com tudo isso. Kylie teve um romance com seu companheiro de trabalho Jason Donovan, mas foi por Michael Hutchence que a paixão realmente incendiou sua vida. Era nítido o amor que sentia por ele e como, no começo, ele lhe fez bem. Tanto que Kylie ganhou confiança para promover uma grande virada em sua carreira no início dos anos 1990, adotando uma fase mais madura.

Contudo, isso não impediu que a mídia continuasse atacando a artista. Michael viajava muito e o relacionamento não foi adiante, deixando Kylie profundamente abalada. Ela então se reconectou consigo mesma em Paris. O fato é que Kylie nunca amou alguém tanto quanto Michael, algo perceptível em seus olhos quando fala dele. A década de 1990 foi um grande laboratório para nossa deusa: amor, transição de imagem, mudanças sonoras, primeiro indo para as pistas e se aproximando ainda mais do público LGBT e, depois, investindo em um som mais alternativo com os álbuns Kylie Minogue e Impossible Princess, além da perda de Michael, que se suicidou, entre tantas outras experiências.

Uma das coisas que mais adorei foi ver Kylie chocando as “mães de família” simplesmente por ser quem era: sexy. Isso também não abalou a rainha, que estava cada vez mais afiada nas respostas e mais independente do que nunca.

Um ponto muito positivo do documentário foi trazer Pete Waterman para falar sobre o início da carreira e sobre a transição artística de Kylie. Outro personagem extraordinário a dar depoimento foi Nick Cave. Aliás, seu trecho é um dos melhores momentos entre os convidados, justamente porque ele era o oposto de Kylie: sombrio, negativo, porém extremamente inteligente e sensível. Foi um encontro de almas, pois Kylie passava por um momento turbulento na vida pessoal e na carreira, e Nick representou justamente o contrário: foi luz e vida. O próprio Nick disse que Kylie iluminava qualquer ambiente por onde passava.

Foi daí que surgiu Where the Wild Roses Grow, uma das melhores músicas de sua carreira e dona de um dos clipes mais belos que já vi. Nick também deu ótimos conselhos a ela em vários aspectos e ainda fez nossa pequena se divertir até declamando em um recital. É mole?

Outro grande mérito do documentário foi explorar o álbum Impossible Princess, detonado pelos críticos em seu lançamento, mas que hoje se tornou um clássico revisitado elogiosamente justamente por aqueles que antes o desprezavam. Foi nesse trabalho que Minogue se aventurou ainda mais nas composições e descreveu o disco como seu projeto mais pessoal até então.

Kylie quase desistiu, mas voltou ao pop com o estrondoso sucesso de Spinning Around, que a levou novamente ao topo das paradas. Depois disso, foi um sucesso atrás do outro até chegar ao maior hit de sua carreira: Can't Get You Out of My Head. Nada parecia capaz de pará-la até que veio a triste notícia, em 2005: Kylie estava com câncer de mama.

O tema é sensível, mas extremamente necessário dentro do documentário. A jornada dolorosa transformou-se em uma grande história de superação, cercada pelo amor da família e dos fãs. Contudo, a mídia desrespeitosa não lhe dava paz nem durante o tratamento, o que a levou a se mudar para Paris para realizar as sessões de quimioterapia com mais tranquilidade. Depois de algum tempo, veio a notícia que todos esperavam: Kylie estava curada. Logo ela retomou a turnê interrompida e continuou brilhando.

Mas a história não para aí. Kylie também tinha outro sonho interrompido: se apresentar em Glastonbury Festival. Contudo, em 2019, ela pôde finalmente realizá-lo, sendo convidada para se apresentar no lendário festival. O documentário ainda explora outros momentos interessantes, como as composições No More Rain e Flower, a primeira sobre a cura e a segunda sobre a maternidade que nunca veio.

Outra parte muito emotiva envolve a notícia de um segundo câncer, em 2021. O pesadelo parecia ter voltado, mas a deusa nunca foi de se entregar. Assim que pôde, voltou ao estúdio e lançou o hit Padam Padam. Além dessa faixa, que lhe rendeu mais um Grammy, temos também Story, outra letra marcada pela superação.

De maneira geral, achei o documentário sensacional. Ele apresenta uma mulher incrível, dona de uma força incalculável. No ano que vem, Kylie completará 40 anos de carreira e, convenhamos, isso não é para qualquer uma. A mídia abjeta precisou engolir o fato de estar diante de uma artista de altíssimo nível, que jamais se diminuiu diante de tanto ódio e desprezo. Kylie influenciou, e segue influenciando, inúmeros jovens artistas, sendo inclusive venerada por Madonna. Ela nunca alimentou rivalidades ou baixarias; pelo contrário, construiu tudo com base em talento e trabalho. O pop deve muito a ela e à sua capacidade quase mágica de transformar em ouro tudo o que faz.

Kylie deveria ser estudada nas universidades como exemplo de alguém que enfrentou o machismo da indústria musical, a podridão dos tabloides britânicos e que sempre esteve ao lado do público LGBT.

Sou fã de Kylie desde 2001, uma pena não tê-la conhecido antes. Cresci em uma cidade do interior do Paraná já tomada pelo sertanejo ruim, e eu sequer tinha TV por assinatura para assistir à MTV. Foi no “Clipmania”, com Sabrina Parlatore, que conheci Kylie, e agradeço a Deus por isso. Minogue já me tirou da depressão inúmeras vezes; me fez rir, chorar e vibrar com cada conquista sua.

Os melhores shows da minha vida foram os dela. Pude vê-la em São Paulo na X Tour, em 2008, e depois na Tension Tour, em 2025. Ela é pura energia, verdadeira e ama profundamente o que faz. Não está ali apenas pelo dinheiro, mas porque respeita e ama sua profissão e seu público. Os fãs de Kylie sempre foram muito bem servidos, com álbuns incríveis, e, sinceramente, ela não tem nenhum trabalho ruim.

Só discordo de uma coisa quando Kylie fala sobre sua própria voz: nem ela parece ter noção do quão lindo é o seu alcance vocal. A diva chega a apresentar potência lírica, algo mostrado no documentário nos bastidores da canção Your Disco Needs You.

Quase chegando ao final, penso que deixaram William Baker um pouco de lado. Talvez alguma coisa não muito boa tenha acontecido para ele não ter sido chamado a depor, ou talvez ele próprio não tenha querido participar, né? Para quem não sabe quem é, William foi um dos grandes parceiros criativos da carreira de Kylie, do fim dos anos 1990 até boa parte da década de 2010. Babado, não é mesmo?

Claro que um documentário não consegue dar conta de quase 58 anos de vida e 40 anos de carreira. Porém, senti falta de menções mais aprofundadas às eras X e Aphrodite. Ainda assim, nada tira o brilho dessa produção impecável e riquíssima em documentos históricos. Meu lado historiador ficou encantado ao ver Kylie revisando folhas de composições, fotografias e outros arquivos pessoais.

E aqui vai uma dica de quem ama música pop: procurem saber quem é Kylie Minogue. Vejo muito público LGBT acreditando que o pop começou com Taylor Swift ou divas ainda mais novinhas. Façam-me o favor! Vão estudar e conhecer Kylie, Madonna e Cher. Elas ajudaram a inventar o pop que hoje tanta gente celebra.

E sem desculpas, hein? Na época em que eu era jovem não existia streaming. Era preciso caçar os álbuns, esperar os clipes passarem na televisão para gravar e, muitas vezes, nem o Google era acessível para quem não tinha condições financeiras.

Em resumo: assistam e celebrem a vida de uma das maiores divas e integrantes da realeza do pop, chamada Kylie Minogue. Seu legado e impacto cultural devem ser lembrados para sempre!

Obs.: Pensei em fazer uma playlist com as melhores músicas da Kylie Minogue, porém gosto de tudo e jamais conseguiria escolher! Beijos de luz. 

Obs: 2: Vejam o documentário na Netflix https://www.netflix.com/watch/82075666?trackId=262781550


Notas por dimensão

Veredito por dimensão

Nota final5.0 / 5.0
  • Direção
    5.0/5.0
  • Roteiro
    5.0/5.0
  • Imagem
    5.0/5.0
  • Trilha sonora
    5.0/5.0
  • Montagem
    5.0/5.0
  • Interpretação
    5.0/5.0

Notas autorais. Critério publicado em /manifesto.

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