Pular para o conteúdo
Livros · Crítica

O presidente pornô: a devassidão republicana refletida no espelho

Ohtero usar criatividade e bom humor em seu livro que satiriza figuras políticas do Brasil

por Alvaro Costa//3 min de leitura
Capa do livro
3 min de leitura·

Em tempos eleitorais, sempre vale relembrar esta obra.

 

Genial! Nada menos que isso é o romance O presidente pornô, de Bruna Kalil Othero. A obra, que pode ser lida como uma escatologia republicana, percorre 134 anos de história de maneira ácida, direta e assustadoramente realista. A ideia aqui parece simples, todavia não é: fazer com que o leitor entre nas cenas através de uma peça de teatro dividida em três atos. Somem-se a isso inúmeras referências políticas, uma linha narrativa não linear e, por fim, um foco narrativo de “onisciência seletiva múltipla” (Júnior, 2009, p. 43). Estão aí os principais ingredientes de uma obra que revela muito da história do Brasil.

A obra de Othero pode ser facilmente trabalhada em aulas do Ensino Superior, especialmente nos cursos da área de Humanas, pois há nela um sentido interdisciplinar ao revelar o perfil dos presidenciáveis, bem como o da própria nação brasileira. Um mergulho nas mentes podres e pornográficas daqueles que governaram e estupraram este país.

E o que dizer dos trocadilhos? Impagáveis! “Plazil”, “Pautria”, “Forças Mamadas”, “Exercuto”, “Palácio do Cacete”, “Portumal”, “Zoropa”, dentre tantos outros. A safadeza desses termos ressoa perfeitamente com a proposta de uma pornochanchada literária, gênero que Othero executa com maestria.

Resumidamente, a ideia do protagonista Bráulio Garrazazuis Bestianelli é, literalmente, foder a República, juntamente com aqueles que pensam como ele. E aqui não faltam os bajuladores da política, da população e até mesmo da imprensa, que corroboram sua visão de mundo. Mesmo sendo um retrato fiel de Jair Messias Bostoraro (perdoem-me o trocadilho que aprendi a fazer com a autora), pode-se verificar a semelhança com outros ex-presidentes, como, por exemplo, Michel Temer, com suas clássicas mesóclises e poesias cafonas, Fernando Collor e sua roubalheira, Getúlio Vargas no episódio da queima de bandeiras, e Washington Luís com a famosa frase “a questão social é caso de polícia”, dentre tantas outras inferências.

E não para por aí: pode-se identificar ainda outras personas políticas, como Pereira Passos, Carlos Lacerda, João Doria, Romeu Zema e José Serra, em passagens impagáveis, como a notícia da suruba de Doria, o fato de Zema querer privatizar até as privadas e a campanha presidencial de 2002, em alusão à frase cacofônica “como eu, como você, como sua vó” (https://www.youtube.com/watch?v=r_TJCktW1hc), utilizada por Serra durante sua candidatura à presidência. As críticas não reverberam somente nas figuras masculinas, sobrando até mesmo para Marcela Temer e Damares Alves, metaforizada através da personagem Pietra Rossi, do Partido Independente Católico Apostólico (PICA).

Othero (2023) soube muito bem inserir em sua narrativa personagens-tipo e estereótipos (Júnior, 2009, p. 29), pois, para pesquisadores e amantes da história, vários deles são facilmente reconhecíveis por características físicas e até mesmo por frases marcantes. Talvez aqui recaia uma crítica à obra, que não a descredibiliza, porém merece menção: só vai rir e gargalhar quem possui repertório histórico. Para que o romance faça sentido, é necessário rememorar diversos fatos, relembrar bordões e até curiosidades íntimas, como a fofoca sobre a maneira pela qual Marcela Temer conheceu seu amado e o achou “charmosão”.

A natureza episódica deixa os atos ágeis, como uma câmera que registra retratos do personagem Brasil e de seus ex-presidentes. Fatos recentes da história política não faltam, como os momentos em que Bolsonaro ignorava problemas do país enquanto era visto passeando de jet ski ou participando de motociatas, além, é claro, da suposta facada e das constantes internações do abjeto político.

 sendo, propositalmente, um humor escrachado, O presidente pornô é uma obra essencialmente crítica. Por trás de tantas metáforas e trocadilhos há um protagonista aviltado: o Brasil. Já diria a imperatriz da narrativa que “a ficção e o riso são armas essenciais nessa cruzada” (Othero, 2023, p. 242). O impressionante é perceber como Othero (2023) conseguiu resumir fatos históricos complexos em apenas 254 páginas, através de puro sarcasmo e vasta fortuna crítica. Mais que literatura, trata-se de um documento histórico. Certamente, é a devassidão republicana refletida no espelho.

 Referências

 JUNIOR, Arnaldo Franco. Operadores de leitura narrativa. In: BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria literária: abordagens históricas e tendencias contemporâneas. Maringá: Eduem, 2009, p. 33-58.

 MARCELA conta a revista como conheceu Michel Temer: achei ele "charmosão". O Estado de S. Paulo, [S. l.], p. s.p., 18 fev. 2011. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/radar-politico/marcela-conta-a-revista-como-conheceu-michel-temer-achei-ele-charmosao/. Acesso em: 24 dez. 2023.

OTHERO, Bruna Kalil. O presidente pornô. São Paulo: Companhia das Letras, 2023. 254 p.

Tags
Cidadesnacional
Compartilhar

Gostou da leitura? Passe pra alguém que também vai gostar.

Compartilhar