Entre o inferno e a decadência: memórias das ditaduras chilena e argentina em duas graphic novels essenciais
Obras revelam experiências traumáticas na América Latina

Hoje, a dica rápida será sobre duas graphic novels que abordam um dos períodos mais tristes da história latino-americana: as ditaduras na Argentina e no Chile. A primeira obra sobre a qual vamos falar é “A herança do coronel”, que narra a história de Elvio Guastavino, um homem criado em um lar cujo pai era um dos militares da ditadura argentina. O protagonista tem o desejo de comprar uma boneca caríssima, e é a partir daí que se desenrola toda a narrativa abjeta.
Essa graphic novel, feita por Carlos Trillo e Lucas Varela, é extremamente caprichada: excelentes desenhos, ótima paleta de cores, edição em capa dura e um texto muito bem construído. Os desenhos possuem um aspecto mais caricatural e funcionam muito bem justamente por conferirem grande expressividade às cenas. Interessante também o uso de cores frias, como azul e lilás, criando uma sensação de ambiente decadente e de distanciamento emocional. Deve-se destacar, ainda, o cuidado com a pesquisa histórica do contexto ditatorial. Na minha visão, é a segunda melhor graphic novel que já li.
Já a segunda é a melhor que já li. Intitulada “Os fantasmas de Pinochet”, feita por Félix Vega e Francisco Ortega, a obra mostra Augusto Pinochet sendo julgado e acusado, ao melhor estilo de “J’accuse”, de Émile Zola, no inferno (como provavelmente deveria ter sido), por aqueles que torturou: opositores, mulheres grávidas, adolescentes, militares que ousaram desobedecer seus superiores, entre outros.
Aqui, os desenhos são realistas, reproduzindo de forma bastante fiel os traços do ditador. Também há um evidente cuidado com a pesquisa histórica do contexto chileno e internacional, mostrando todo o desenrolar da ditadura que durou de 1973 a 1990. A obra ainda apresenta diversas figuras ligadas ao regime, como Margaret Thatcher. Gostei muito do uso de cores quentes nesta graphic novel, pois elas representam bem a violência e a agressividade presentes na narrativa. A única crítica é que a obra poderia ter sido lançada em capa dura, pois um trabalho tão luxuoso merece esse acabamento.
Interessante perceber que tanto as cores frias da graphic novel sobre a Argentina quanto as cores quentes da obra sobre o Chile dialogam entre si, já que a ditadura representa simultaneamente ódio, violência e tristeza. As capas também sintetizam muito bem as propostas das obras: enquanto uma remete à decadência e à sujeira, a outra mostra a Deusa da Justiça em uma espécie de julgamento pós-morte de Pinochet. É sensacional a analogia de que, se não houve justiça em vida, ela acontecerá no inferno.
Ambas as obras são altamente recomendadas para amantes de graphic novels (como eu), bem como para historiadores e pesquisadores interessados no tema.
Mesmo que sejam obras de 2002, o assunto continua muito importante na contemporaneidade, já que a América Latina não está imune a novos golpes de Estado, como o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff no Brasil, em 2016, e a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, nem ao avanço de governos de extrema direita, realidade que Chile e Argentina enfrentam atualmente. As sombras e os fantasmas do passado ainda estão presentes, o que serve de alerta para a necessidade de fortalecer e refletir sobre nossas democracias.
A herança do coronel
Autores: Carlos Trillo e Lucas Varela
Título original: L’Héritage du colonel
País: Argentina (os autores são argentinos; a obra foi publicada originalmente no mercado franco-belga)
Editora brasileira: Comix Zone
Ano da edição brasileira: 2022
Número de páginas: 104 páginas
Gênero: História em quadrinhos / graphic novel
Tradução: Fernando Paz
Os fantasmas de Pinochet
Autores: Félix Vega e Francisco Ortega
País: Chile
Editora brasileira: Conrad Editora
Ano da edição brasileira: 2022
Número de páginas: 136 páginas
Formato: 17 cm × 26 cm
Gênero: Literatura em quadrinhos / graphic novel
Tema: Ditadura de Augusto Pinochet e seus fantasmas históricos e políticos.



